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Há mais de uma década, exatamente no dia 10 de novembro de 2014, tive a honra de apresentar pesquisas em biotecnologia marinha e os recifes amazônicos para o então embaixador do Brasil no Japão, junto com o biólogo baiano Pedro Meirelles, hoje professor da UFBA, meu amigo da Universidade de Hokkaido, professor Tomoo Sawabe e o assessor do embaixador brasileiro em Tóquio, sobrinho de um grande compositor e músico brasileiro. Na ocasião destacamos a importância de projetos bilaterais, entre o Brasil e o Japão, em bioenergia e biorrecursos marinhos. Destaque especial foi dado aos estudos de recifes brasileiros, incluindo os recifes Amazônicos e Abrolhos, bem como aos recifes do Japão em Okinawa. Os corais “mesa” (table corals) japoneses formam imensos recifes que sustentam vasta biodiversidade. Estes projetos contavam com financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), no lado brasileiro, e da JST (Japan Science and Technology Agency) e da JSPS (Japan Society for the Promotion of Science), no lado japonês. Desde então, o fomento público a parcerias como esta com o Japão só tem diminuído.
Neste ano, uma grande petroleira se manifesta a favor da exploração de petróleo na foz do Amazonas, e informa, em matéria de jornal de grande circulação, que não haveria corais na foz do Amazonas (1). Na esteira desta manifestação, poucos dias depois, a Academia Brasileira de Ciências se manifesta sobre a exploração do petróleo na foz do Amazonas (2). Esta manifestação da ABC foi debatida logo na sequência (3 e 4).
Por outro lado, algumas matérias destacaram a problemática da exploração do óleo e gás na foz do Amazonas durante a COP30, ressaltando que o Brasil não poderia buscar liderança global diante da crise climática, ao explorar “a última gota de óleo” (5 e 6). Paralelamente, a situação apenas se agrava no que se refere aos navios de pesquisa brasileiros, com a crise financeira da Marinha do Brasil, devido ao corte de verbas (7). A ausência de navios de pesquisa brasileiros impulsiona a pesquisa helicóptero aqui (8). Recentemente trouxemos uma proposta concreta para o desenvolvimento da bioeconomia marinha e para o uso sustentável dos recifes Amazônicos (9 e 10).
1) https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2025/08/05/presidente-da-petrobras-diz-que-debate-sobre-exploracao-da-margem-equatorial-esta-beirando-o-consenso.ghtml
2) https://www.abc.org.br/2025/08/07/abc-lanca-relatorio-petroleo-margem-equatorial/.
3) https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2025/08/exploracao-de-petroleo-na-margem-equatorial-demanda-mais-estudos-e-salvaguardas-diz-academia-brasileira-de-ciencias.shtml
4) https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/carlos-nobre/2025/11/22/transicao-alinhada-a-ciencia-exige-lideranca-coragem-e-coerencia.htm
5) https://www.science.org/doi/10.1126/science.aed3748
6) https://www.science.org/doi/10.1126/science.aed3752
7) https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/06/29/nas-forcas-armadas-ha-escassez-de-verba-para-radares-cacas-e-navios.ghtml
8) https://www.nature.com/articles/d41586-021-01795-1
9) https://www.abc.org.br/2025/11/19/abc-lanca-resumo-do-que-ha-de-mais-atual-na-ciencia-sobre-a-regiao-amazonica/
10) https://relatorioreservado.com.br/noticias/fundo-de-recifes-tropicais-para-sempre/
Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências.
A China oferece para o mundo hoje o que os Estados Unidos ofereceram há mais de um século?
Há mais de cem anos, os Estados Unidos receberam grande contingente de cientistas, especialmente europeus, das mais variadas áreas. Até meados do século passado, Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) era predominantemente liderada pelos europeus. Esta migração para a América resultou em mudanças significativas. Estes cientistas auxiliaram a alavancar as universidades e centros de pesquisas norte-americanos para os patamares hegemônicos atuais.
Hoje, a China oferece muitas oportunidades para profissionais de CTI, como infraestrutura sólida, salários competitivos (acima de US$ 300 mil/ano) e ótimas condições de trabalho, com a montagem, por exemplo, de laboratórios milionários. Embora o país asiático seja produtor de óleo & gás, inclusive aqui no Brasil, não podemos o considerá-lo uma “Petronação” ou um exportador de comodities. Pelo contrário. A China investe pesadamente em soberania alimentar e energética, com crescimento da energia renovável (solar, biomassa). Desenvolvimento de novos medicamentos, 5G, inteligência artificial, aquicultura, biotecnologia, bioeconomia, ciências de foguetes, satélites, trem-bala, carros elétricos são alguns exemplos relevantes do protagonismo chinês na ciência e na inovação.
E o Brasil nesse tabuleiro? Alguns estados vêm tentando recrutar cientistas internacionais, mas ainda de forma tímida e em uma escala pequena. O país tem pelo menos cinco mil pós-docs sem bolsa (sem trabalho?). Neste contexto, existem evidentes oportunidades para brasileiros, centradas especialmente nos recém-doutores que buscam se estabelecer no mercado de trabalho. Recente edital do CNPQ absorveu apenas 10% dos candidatos com PhD. A China tem mais de 2.500 universidades. É, portanto, um destino natural para cientistas. Temos um contingente enorme de doutores formados no Brasil que não estão vinculados formalmente e poderiam aproveitar esta oportunidade do gigante chinês. Se cada universidade chinesa absorvesse dois pós-docs brasileiros, o problema estaria resolvido, ao menos temporariamente. Há diversas oportunidades para CTI, incluindo a recuperação de sistemas marinhos destruídos, por exemplo, por sistemas coralíneos.
A China usa basicamente o mandarim. Mesmo em megacidades, como Shanghai, o inglês não é muito utilizado. A cultura chinesa é outro aspecto que merece destaque. Bastante hierárquica e formal, especialmente na região norte do país, remontando aos preceitos do Confucionismo, ainda há uma estrutura bem tradicional nas universidades e centros de pesquisa. Líderes de grupo estrangeiros são raros. Por outro lado, muitas instituições ainda requerem uma modernização para padrões de internacional. A força de trabalho na China é impressionante. Assim como o é a longa jornada de trabalho, podendo exceder 50 horas semanais mesmo dentro das universidades.
Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências.
O imenso sistema recifal amazônico (o GARS; Great Amazon Reef System; superior a 56 mil Km2) volta ao foco das atenções durante a COP30. O GARS é um recife mesofótico biodiverso, ocorrendo em áreas mais profundas (até 220 metros), com reduzida disponibilidade de luz, podendo ser um santuário ainda protegido do aquecimento rápido de águas marinhas de superfície, um possível banco de “sementes” para recifes rasos. O GARS sustenta vastas pescarias nos estados do Amapá e Pará, com a possibilidade também de atuar como corredor ecológico entre a Margem Continental brasileira e o Caribe.
Porém, este sistema recifal está sob ameaça, pois ocorre na mesma região onde, hoje, são ofertados 130 blocos de petróleo. A exploração de petróleo nas proximidades da foz do Amazonas avança, com a liberação recente pelo Ibama, em 20 de outubro de 2025. Por outro lado, é necessário impulsionar, com urgência, a economia da inovação no nosso país. Uma alternativa seria considerar todo o petróleo e gás da foz do Amazonas e Margem Equatorial como uma reserva técnica. Esta reserva seria usada pelo nosso país apenas em casos extremos de instabilidade global. Manter estas riquezas de Óleo&Gás como reserva técnica, para episódios extremos, reduziria emissões de GHG (Greenhouse gases), inerentes ao processo de exploração e produção de combustíveis fósseis, e também permitiria o melhor conhecimento sobre a biodiversidade desta vasta Margem Equatorial. Um novo fundo poderia ser constituído pelo Brasil para manter esta reserva técnica.
Assim como o Fundo de Florestas Tropicais Para Sempre, com mais de US$ 5 bilhões de investimentos iniciais, lançado durante a COP30, visa a preservação das Florestas Tropicais tais como a Amazonia, um novo fundo focado em recifes poderia também ser concebido. Para o novo Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, duas Petronações já contribuíram (Noruega, com US$ 3 bilhões; e França com US$ 500 milhões). Um novo fundo voltado ao financiamento da preservação e uso sustentável de recifes com recursos públicos e privados, e retorno financeiro, poderia ser estabelecido.
Porém, há desafios relevantes no que tange o conhecimento científico sobre a Margem Equatorial. Até hoje a região carece de ciência. Quatro grandes expedições culminaram no estado-da-arte atual (2012, 2014, 2017, 2018). Um breve histórico merece registro. Em 2012, junto com professor Carlos Rezende da UENF, coordenamos equipes de pesquisa sobre Pluma e Foz do Amazonas a bordo do Navio Atlantis dos EUA. À época, Rezende buscava liberação junto ao EMA-MB (Estado Maior da Armada da Marinha do Brasil) – portaria 150 de 2012, enquanto buscávamos coletas via MMA/ICMBIO/SISBIO (Ministério do Meio Ambiente, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade) – permissão de pesquisa 33823-2.
Em 2014, com o auxílio do Navio Cruzeiro do Sul, sob os cuidados da Marinha e do Ministério da Ciência e Tecnologia, coordenamos pesquisas com coleta de biodiversidade no GARS (projeto descoberta de um novo bioma marinho recifal Amazônico) que culminou em um trabalho pioneiro na Sciences Advances1. Alguns anos mais tarde, coordenamos outra expedição importante, que permitiu os primeiros mergulhos com submersível tripulado, em 28 de Janeiro de 2017, a bordo do Navio Esperanza do Greenpeace. Nesta ocasião obtivemos as primeiras imagens do recife e da sua biodiversidade2. No ano seguinte, novamente a bordo do Esperanza, empregamos um grande ROV, e conseguimos filmagens nas proximidades do bloco FZA-M-059. Infelizmente, desde então, poucos estudos independentes têm ocorrido na região.
O estabelecimento de um novo Fundo para os Recifes para Sempre poderia contribuir para investir em Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) e para alavancar as ciências do mar, incluindo a oceanografia, engenharia, sociologia e bioeconomia. Especial atenção poderia ser dada aos estudos sobre estrutura, função e dinâmica do GARS e do megabioma amazônico. Garantir a preservação da biodiversidade por meio de sistemas inovadores de cultivo da biota do GARS, incluindo cultivos de algas, esponjas e corais em sistemas controlados, e manutenção da biodiversidade, seu material genético em condições seguras e de salvaguarda, seria uma forma também de evitar que a biodiversidade do GARS seja levada para grandes museus e centros de pesquisa do estrangeiro.
É absolutamente vital que o Brasil crie mecanismos para explorar a biodiversidade endêmica por meio da biotecnologia, biologia sintética, engenharia genética, fermentações e aplicações práticas, assim como obter novos fármacos, alimentos e bioinsumos a partir da biodiversidade do GARS. O investimento em bioeconomia marinha permitirá alavancar o desenvolvimento socioeconômico, empreendedorismo e inclusão produtiva, incluindo uma cultura que envolva as comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas. O que está em pauta é o desenvolvimento da economia da inovação.
1 https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.1501252
2 https://doi.org/10.3389/fmars.2018.00142
Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências, colaborador especial do Relatório Reservado.
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