Fabiano Thompson - Relatório Reservado

Artigos: Fabiano Thompson

Bioeconomia regenerativa do oceano: uma agenda fundamental do nosso tempo

16/04/2026
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Um leitor atento alertou quanto a possível apologia à economia do O&G e da mineração no último texto de 27 de março de 2026. Faço alguns esclarecimentos:

Primeiro, temos defendido que a bioeconomia do mar pode ser um vetor de desenvolvimento socioeconômico para o nosso país, com a geração de emprego e renda. A inclusão produtiva será necessária especialmente no estado do Rio de Janeiro, que tem sua economia fortemente calcada no setor de óleo e gás.

Em segundo lugar, royalties serão bem empregados para o desenvolvimento da bioeconomia do mar, permitindo ampliar a matriz econômica, como outros países já fizeram, por exemplo a Noruega. Investimentos em educação e cultura, para formação de novos programas de ensino médio, graduação, pós-graduação, novos profissionais, tais como cientistas de dados, (bio)tecnólogos, e engenheiros de bioprocessos, serão necessários.

Como terceiro ponto, a bioeconomia do mar poderá ser fundamental como atividade regenerativa, melhorando a saúde do oceano, por exemplo, com a reconstrução de recifes de corais e repovoamento de sistemas marinhos diversos empobrecidos de biodiversidade2. Outro exemplo relevante é o uso de algas e microalgas para a descarbonização de processos industriais que imprimem pesada externalidade negativa em plantas de produção.

Paralelamente, precisaremos reforçar a soberania da ciência, tecnologia e inovação brasileira, reforçando iniciativas nacionais de estudo e uso sustentável dos recursos biológicos. Aqui cabe relembrar o trabalho pioneiro de Dr C.F. Hartt já em 1867, que conduziu levantamentos sobre a biodiversidade de corais no Brasil, e levou a biodiversidade de corais endêmicos brasileiros para o Museu da Universidade Particular de Yale, nos EUA3. Desde então recifes no Brasil e no mundo, vem sofrendo processo de destruição.

No último dia primeiro de abril de 2026 o governo federal lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) para desenvolvimento da bioindústria, fitoterápicos e ampliação de unidades de conservação para ecoturismo para a próxima década4 5. Este plano pode ser uma alavanca para o desenvolvimento da bioeconomia do mar no Brasil.

Este plano federal está alinhado com recente diretiva da FAPESP que elencou temas estratégicos para CTI em 18 de março de 20266. Entre os temas priorizados pela FAPESP estão Biotecnologia, Transição Energética, e Biodiversidade, produção sustentável de alimentos e segurança alimentar. Em recente entrevista, Mariangela Hungria da Embrapa, sugere que poderíamos substituir 40% do fertilizante inorgânico por biofertilizantes 7. É uma oportunidade para os bioinsumos marinhos. A pilocarpina é um bom exemplo de medicamento oriundo de plantas brasileiras que reverteu em recursos para o estrangeiro.

Finalmente, cabe destacar que embora o Brasil venha participando de reuniões de estado do G7, por conta de sua forte economia de comodities, é notória a marca de externalidades negativas no nosso país, e especialmente no estado do Rio de Janeiro, onde é produzida a maior parcela do O&G brasileiro, enquanto divisas e lucros saem do estado fluminense.

  1. https://relatorioreservado.com.br/noticias/economia-azul-paz-soberania-e-desenvolvimento/
  2. https://oglobo.globo.com/blogs/ancelmo-gois/post/2026/03/pesquisadores-da-ufrj-realizam-a-primeira-reproducao-de-corais-em-uma-universidade-brasileira.ghtml
  3. Verrill, A.E. (1868). Notes on Radiata in the Museum of Yale College, with descriptions of new genera and species. No. 4. Notice of the corals and Echinoderms collected by Prof. C.F. Hartt, at the Abrolhos Reefs, Province of Bahia, Brazil, 1867. Transactions of the Connecticut Academy of Arts and Sciences. 1 (2): 351-376., available online at https://biodiversitylibrary.org/page/13380325 [details]
  4. https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/participacao-do-ministro-mauro-vieira-na-reuniao-de-chanceleres-do-g7
  5. https://www.gov.br/mma/pt-br/composicao/sbc/dpeb/estrategia-nacional-de-bioeconomia/plano-nacional-de-desenvolvimento-da-bioeconomia
  6. https://fapesp.br/publicacoes/2026/temasestrategicos.pdf
  7. https://www.youtube.com/watch?v=J_xBeyzwlP4

Economia Azul: paz, soberania e desenvolvimento

27/03/2026
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A Economia do Mar é o maior tesouro do Brasil. O Brasil detém (i) vasta biodiversidade endêmica, (ii) diversos biomas marinhos (manguezais, ressurgência, recifes, bancos de algas, bancos de esponjas, exsudações frias de oceano profundo), (iii) áreas propícias para empreendimentos industriais marinhos (5,7 milhões Km2), (iv) recursos humanos e (v) demanda interna e externa por produtos, tais como biofertilizantes, minerais e alimentos. Segundo dados da FAO, até 2050 o Brasil representará 50% do mercado mundial de produção de alimentos e 80% do crescimento global do suprimento de nutrientes. É a partir do encontro da terra com o mar que o país será produtor de proteína sem previsão de escassez e de fertilizantes, dos quais dependemos, para continuar na situação privilegiada de uma das maiores agropecuárias convencionais do planeta.

Este encontro poderá nos inserir de forma proativa na geopolítica do petróleo, que muda com esse século da ameaça climática, guerras longevas e a transição energética – temos um enorme potencial em área marinha, biodiversidade e reservas de recursos minerais críticos. É neste contexto que poderíamos realinhar nossa reindustrialização. Porém, o nosso país enfrenta novos desafios, tais como a sobre-explotação dos recursos marinhos.

Estudo recente publicado na Nature demonstra que há queda nos investimentos públicos em CTI voltados para agricultura¹. Entre 1980 e 2021, a população cresceu 80% (3,5 bilhões de pessoas). Já os investimentos em PDI na agricultura e no sistema agroalimentar aumentaram 189% no mesmo intervalo. Em 1980, a cifra foi de US$ 38 bilhões; em 2021, chegou a US$ 110 bilhões. Nesse período, apenas a Ásia ampliou proporcionalmente sua fatia nesse bolo. Em 1980, a região respondeu por 22% dos investimentos em PDI no sistema agroalimentar (US$ 8,3 bilhões); em 2021, essa participação atingiu 50% (US$ 55 bilhões). Ou seja: em valores absolutos, os aportes cresceram seis vezes. Nesse mesmo espaço de tempo, os desembolsos da América Latina subiram de US$ 4,1 bilhões para US$ 7,7 bilhões, um acréscimo de 87%, bem inferior à média mundial. A participação da região nos investimentos totais, por sua vez, caiu de 11% em 1980 para 7% em 2021. Como cada real investido em PDI voltado ao sistema de PDI agroalimentar resulta em retorno social equivalente a R$ 10, é evidente que esta área merece atenção.

Existem três grandes tendências. Primeiro, houve queda de um terço na taxa de crescimento do investimento em PDI voltado ao setor da agricultura e alimentos entre 2015 e 2021. Segundo, ocorreu aumento da participação de países em desenvolvimento, notoriamente, Índia, China e Brasil, e diminuição da participação de países desenvolvidos. Índia e China superaram os EUA em investimentos públicos. Finalmente, foi verificado aumento do investimento oriundo do setor privado (1980: 32% do investimento global em PDI; 2021: subida para 50%). Trata-se de PDI voltado, sobretudo, a processamento de alimentos, cadeia de produção e armazenamento. Cerca de 90% do valor do alimento é devido a atividades pós-produção na fazenda.

Embora recomende retomada forte no investimento em PDI do sistema agroalimentar, o estudo antevê problemas no futuro, tais como redução dos recursos para desenvolvimento de novas variedades de plantas e animais. Este tipo de pesquisa é demorada e requer longos períodos para obtenção de variedades mais bem adaptadas a condições ambientais adversas, como aumento de temperatura e salinidade² ³ ⁴. A produção de sementes de novas variedades em escala também é um processo demorado e laborioso diante de mudanças climáticas e escassos recursos naturais.

Um exemplo notório da escassez é a redução nos estoques pesqueiros marinhos do Brasil. Embora a produção pesqueira marinha no Brasil tenha se mantido estável na última década, girando em torno de 500 mil toneladas por ano, a recente lista de espécies ameaçadas de extinção do Ministério do Meio Ambiente (Portaria MMA Nº 148, de 07 de Junho de 2022) demonstra que diversos estoques de peixes marinhos estão ameaçados pela sobre-explotação⁵. De acordo com esta lista, o pargo e a garoupa (comuns na foz do Amazonas) são considerados vulneráveis; o budião azul (comum em Abrolhos) é classificado em perigo; e o mero (comum em vários estados brasileiros) está criticamente em perigo. Mesmo a corvina já estaria sob risco*. Por outro lado, muitas espécies tais como sardinha e anchoíta ainda estão bastante saudáveis.

Há mais de uma década, um dos principais cientistas em biologia pesqueira do nosso país, o professor Jorge Pablo Castello, alertou que a produção pesqueira marinha apresentava diversos estoques sobre-explotados e em declínio⁶. Ele destacou também que apenas a maricultura atenderia adequadamente o aumento na demanda por pescado.

Embora o Brasil apresente vasta área marinha (5,7 milhões de Km2; denominada Amazônia Azul), apenas algumas regiões apresentam produtividade primária suficientes para sustentar pescarias, tais como Cabo Frio e Cabo de Santa Marta, devido à ressurgência, Foz do Amazonas, pelo aporte direto de nutrientes pelo Rio Amazonas, e Rio Grande do Sul, pela vinda de nutrientes do Rio da Prata da Argentina. Porém, há alternativas para o uso das regiões marinhas com menor produtividade. As pesquisas em biologia pesqueira revelam que a maricultura seria o caminho para ampliar a produção de alimentos, bioinsumos e de biofertilizantes. O Brasil tem alta dependência dos fertilizantes, especialmente o fósforo, vindo do estrangeiro⁷ ⁸.

Soberania científica e tecnológica

A Província de Shandong no norte da China investe US$ 30 bilhões por ano em CTI. Nesta província foi desenvolvido um navio- fábrica que produz três mil toneladas de peixe por ano⁹. A China responde por mais de 60% da produção de pescados, empregando uma área de um milhão de hectares (equivalente a menos de 20% da nossa Amazônia Azul). A China vem assumindo a liderança em oceano, incluindo desenvolvimento de novos equipamentos, pesquisa em oceano profundo, fármacos e compostos bioativos¹⁰. Por outro lado, o avanço científico no Atlântico Sul, ao largo do Brasil, e na Amazonia, está sendo protagonizado por iniciativas do estrangeiro¹¹.

É absolutamente vital que o Brasil crie mecanismos para explorar a biodiversidade endêmica por meio da biotecnologia, bioprocessos, biologia sintética, engenharia genética, fermentações e aplicações práticas, assim como obter novos fármacos, alimentos e bioinsumos a partir da biodiversidade do mar e de seus recifes de corais. O investimento em bioeconomia marinha permitirá alavancar o desenvolvimento socioeconômico, empreendedorismo e inclusão produtiva, incluindo uma cultura que envolva as comunidades tradicionais. O que está em pauta é o desenvolvimento da economia da inovação.

Minerais, energia e inovação

Embora o Brasil seja um dos campeões mundiais na exportação de minério de ferro e alumínio para o estrangeiro, e seja reconhecido como um dos maiores fornecedores de matéria-prima para manufaturas especialmente na Asia, existem desafios na sustentabilidade deste segmento. O ambiente marinho brasileiro foi impactado por desastres da mineração que ainda hoje afetam os sistemas aquático e marinho do nosso país¹². Estes desastres causaram externalidades negativas para a população dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. O rejeito de minério de ferro da barragem do fundão no município de Mariana (Minas Gerais) atingiu o Banco de Abrolhos.

Divisas oriundas da exploração de petróleo na margem equatorial brasileira (estimativas de 30 bilhões de barris) e de minerais raros (possivelmente alcançando as cifras dos trilhões de reais) em diversas jazidas ainda inexploradas da vasta Amazônia Azul podem permitir que o Brasil seja o sétimo PIB do mundo. Por exemplo, uma pequena jazida de zircônio (tório) em Cumuruxatiba, na Bahia, teria 365 mil toneladas do minério, o que renderia 5 bilhões de reais. Já considerando a Elevação do Rio Grande (acima de 150 mil Km2), o tório/berílio representaria divisas na ordem de dois trilhões de reais. Titânio, níquel, cobalto e potássio presentes nesta elevação representariam adicionais R$ 10 trilhões. Existem diversas jazidas minerais no mar brasileiro. Royalties poderão ser investidos em uma nova (bio)economia do mar voltada a inovação. Precisamos proteger nossos recursos para o desenvolvimento da nossa nação em benefício dos brasileiros.

O Brasil está entre os dez países com maiores zonas marinhas exclusivas, ocupando a terceira posição, ficando atrás apenas da Austrália e da Rússia, se considerarmos área contígua como referência. Tudo que está no mar pertence a União e, como tal, são ativos disponíveis para associação com o capital privado em projetos de interesse comum. O Capital privado, fundos soberanos, a Marinha e a Embrapa poderiam abrir uma “joint venture” do mar?

Notas

[1]    https://www.nature.com/articles/d41586-025-03970-0
[2]    https://conexao.ufrj.br/2024/01/a-economia-dos-mares/
[3]    https://conexao.ufrj.br/2024/10/instituto-de-biologia-promove-aquicultura- sustentavel-em-pesquisa-internacional/
[4]    https://integridadeesg.insightnet.com.br/brasil-precisa-de-um-proalcool-marinho- para-desenvolver-bioeconomia-do-mar/
[5]    https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-mma-n-148-de-7-de-junho-de-2022-406272733
[6] http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252010000300013
[7] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/braulio-borges/2026/03/lidando-com-o-choque-do-petroleo.shtml?pwgt=ktxqny361w1cir32fze9we2dbg7f5zt5stp0gprxm1n73rpe&utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwagift
[8] https://valor.globo.com/brasil/coluna/guerra-expoe-elo-vulneravel-do-agro-brasileiro.ghtml
[9] https://www.youtube.com/shorts/r47INR_lf6U
[10] https://relatorioreservado.com.br/Fabiano%20Thompson/
[11] https://schmidtocean.org/cruises/schmidt-ocean-institute-2026-expeditions/
[12] https://conexao.ufrj.br/2026/01/analises-do-microbioma-podem-balizar-as-acoes-de-restauracao-ambiental-na-bacia-do-rio-doce/

*nomes científicos (corvina argentina: Umbrina canosai; corvina: Micropogonias furnieri; garoupa: Epinephelus marginans; Mero: Epinephelus itajara; Anchoíta: Engraulis anchoita; Sardinha: Sardinella brasiliensis; budião azul: Scarus trispinosus; pargo: Lutjanus purpureus).

Aquilo que não foi discutido na COP30

24/11/2025
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Há mais de uma década, exatamente no dia 10 de novembro de 2014, tive a honra de apresentar pesquisas em biotecnologia marinha e os recifes amazônicos para o então embaixador do Brasil no Japão, junto com o biólogo baiano Pedro Meirelles, hoje professor da UFBA, meu amigo da Universidade de Hokkaido, professor Tomoo Sawabe e o assessor do embaixador brasileiro em Tóquio, sobrinho de um grande compositor e músico brasileiro. Na ocasião destacamos a importância de projetos bilaterais, entre o Brasil e o Japão, em bioenergia e biorrecursos marinhos. Destaque especial foi dado aos estudos de recifes brasileiros, incluindo os recifes Amazônicos e Abrolhos, bem como aos recifes do Japão em Okinawa. Os corais “mesa” (table corals) japoneses formam imensos recifes que sustentam vasta biodiversidade. Estes projetos contavam com financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), no lado brasileiro, e da JST (Japan Science and Technology Agency) e da JSPS (Japan Society for the Promotion of Science), no lado japonês. Desde então, o fomento público a parcerias como esta com o Japão só tem diminuído.

Neste ano, uma grande petroleira se manifesta a favor da exploração de petróleo na foz do Amazonas, e informa, em matéria de jornal de grande circulação, que não haveria corais na foz do Amazonas (1). Na esteira desta manifestação, poucos dias depois, a Academia Brasileira de Ciências se manifesta sobre a exploração do petróleo na foz do Amazonas (2). Esta manifestação da ABC foi debatida logo na sequência (3 e 4).

Por outro lado, algumas matérias destacaram a problemática da exploração do óleo e gás na foz do Amazonas durante a COP30, ressaltando que o Brasil não poderia buscar liderança global diante da crise climática, ao explorar “a última gota de óleo” (5 e 6). Paralelamente, a situação apenas se agrava no que se refere aos navios de pesquisa brasileiros, com a crise financeira da Marinha do Brasil, devido ao corte de verbas (7). A ausência de navios de pesquisa brasileiros impulsiona a pesquisa helicóptero aqui (8). Recentemente trouxemos uma proposta concreta para o desenvolvimento da bioeconomia marinha e para o uso sustentável dos recifes Amazônicos (9 e 10).

1) https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2025/08/05/presidente-da-petrobras-diz-que-debate-sobre-exploracao-da-margem-equatorial-esta-beirando-o-consenso.ghtml
2) https://www.abc.org.br/2025/08/07/abc-lanca-relatorio-petroleo-margem-equatorial/.
3) https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2025/08/exploracao-de-petroleo-na-margem-equatorial-demanda-mais-estudos-e-salvaguardas-diz-academia-brasileira-de-ciencias.shtml
4) https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/carlos-nobre/2025/11/22/transicao-alinhada-a-ciencia-exige-lideranca-coragem-e-coerencia.htm
5) https://www.science.org/doi/10.1126/science.aed3748
6) https://www.science.org/doi/10.1126/science.aed3752
7) https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/06/29/nas-forcas-armadas-ha-escassez-de-verba-para-radares-cacas-e-navios.ghtml
8) https://www.nature.com/articles/d41586-021-01795-1
9) https://www.abc.org.br/2025/11/19/abc-lanca-resumo-do-que-ha-de-mais-atual-na-ciencia-sobre-a-regiao-amazonica/
10) https://relatorioreservado.com.br/noticias/fundo-de-recifes-tropicais-para-sempre/

Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências.

#COP30

Porque a China é assim

17/11/2025
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A China oferece para o mundo hoje o que os Estados Unidos ofereceram há mais de um século?

Há mais de cem anos, os Estados Unidos receberam grande contingente de cientistas, especialmente europeus, das mais variadas áreas. Até meados do século passado, Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) era predominantemente liderada pelos europeus. Esta migração para a América resultou em mudanças significativas. Estes cientistas auxiliaram a alavancar as universidades e centros de pesquisas norte-americanos para os patamares hegemônicos atuais.

Hoje, a China oferece muitas oportunidades para profissionais de CTI, como infraestrutura sólida, salários competitivos (acima de US$ 300 mil/ano) e ótimas condições de trabalho, com a montagem, por exemplo, de laboratórios milionários. Embora o país asiático seja produtor de óleo & gás, inclusive aqui no Brasil, não podemos o considerá-lo uma “Petronação” ou um exportador de comodities. Pelo contrário. A China investe pesadamente em soberania alimentar e energética, com crescimento da energia renovável (solar, biomassa). Desenvolvimento de novos medicamentos, 5G, inteligência artificial, aquicultura, biotecnologia, bioeconomia, ciências de foguetes, satélites, trem-bala, carros elétricos são alguns exemplos relevantes do protagonismo chinês na ciência e na inovação.

E o Brasil nesse tabuleiro? Alguns estados vêm tentando recrutar cientistas internacionais, mas ainda de forma tímida e em uma escala pequena. O país tem pelo menos cinco mil pós-docs sem bolsa (sem trabalho?). Neste contexto, existem evidentes oportunidades para brasileiros, centradas especialmente nos recém-doutores que buscam se estabelecer no mercado de trabalho. Recente edital do CNPQ absorveu apenas 10% dos candidatos com PhD. A China tem mais de 2.500 universidades. É, portanto, um destino natural para cientistas. Temos um contingente enorme de doutores formados no Brasil que não estão vinculados formalmente e poderiam aproveitar esta oportunidade do gigante chinês. Se cada universidade chinesa absorvesse dois pós-docs brasileiros, o problema estaria resolvido, ao menos temporariamente. Há diversas oportunidades para CTI, incluindo a recuperação de sistemas marinhos destruídos, por exemplo, por sistemas coralíneos.

A China usa basicamente o mandarim. Mesmo em megacidades, como Shanghai, o inglês não é muito utilizado. A cultura chinesa é outro aspecto que merece destaque. Bastante hierárquica e formal, especialmente na região norte do país, remontando aos preceitos do Confucionismo, ainda há uma estrutura bem tradicional nas universidades e centros de pesquisa. Líderes de grupo estrangeiros são raros. Por outro lado, muitas instituições ainda requerem uma modernização para padrões de internacional. A força de trabalho na China é impressionante. Assim como o é a longa jornada de trabalho, podendo exceder 50 horas semanais mesmo dentro das universidades.

Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências.

Fundo de recifes tropicais para sempre?

10/11/2025
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O imenso sistema recifal amazônico (o GARS; Great Amazon Reef System; superior a 56 mil Km2) volta ao foco das atenções durante a COP30. O GARS é um recife mesofótico biodiverso, ocorrendo em áreas mais profundas (até 220 metros), com reduzida disponibilidade de luz, podendo ser um santuário ainda protegido do aquecimento rápido de águas marinhas de superfície, um possível banco de “sementes” para recifes rasos. O GARS sustenta vastas pescarias nos estados do Amapá e Pará, com a possibilidade também de atuar como corredor ecológico entre a Margem Continental brasileira e o Caribe.  

Porém, este sistema recifal está sob ameaça, pois ocorre na mesma região onde, hoje, são ofertados 130 blocos de petróleo.  A exploração de petróleo nas proximidades da foz do Amazonas avança, com a liberação recente pelo Ibama, em 20 de outubro de 2025. Por outro lado, é necessário impulsionar, com urgência, a economia da inovação no nosso país. Uma alternativa seria considerar todo o petróleo e gás da foz do Amazonas e Margem Equatorial como uma reserva técnica. Esta reserva seria usada pelo nosso país apenas em casos extremos de instabilidade global. Manter estas riquezas de Óleo&Gás como reserva técnica, para episódios extremos, reduziria emissões de GHG (Greenhouse gases), inerentes ao processo de exploração e produção de combustíveis fósseis, e também permitiria o melhor conhecimento sobre a biodiversidade desta vasta Margem Equatorial. Um novo fundo poderia ser constituído pelo Brasil para manter esta reserva técnica. 

Assim como o Fundo de Florestas Tropicais Para Sempre, com mais de US$ 5 bilhões de investimentos iniciais, lançado durante a COP30, visa a preservação das Florestas Tropicais tais como a Amazonia, um novo fundo focado em recifes poderia também ser concebido. Para o novo Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, duas Petronações já contribuíram (Noruega, com US$ 3 bilhões; e França com US$ 500 milhões). Um novo fundo voltado ao financiamento da preservação e uso sustentável de recifes com recursos públicos e privados, e retorno financeiro, poderia ser estabelecido. 

Porém, há desafios relevantes no que tange o conhecimento científico sobre a Margem Equatorial. Até hoje a região carece de ciência. Quatro grandes expedições culminaram no estado-da-arte atual (2012, 2014, 2017, 2018). Um breve histórico merece registro. Em 2012, junto com professor Carlos Rezende da UENF, coordenamos equipes de pesquisa sobre Pluma e Foz do Amazonas a bordo do Navio Atlantis dos EUA. À época, Rezende buscava liberação junto ao EMA-MB (Estado Maior da Armada da Marinha do Brasil) – portaria 150 de 2012, enquanto buscávamos coletas via MMA/ICMBIO/SISBIO (Ministério do Meio Ambiente, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade) – permissão de pesquisa 33823-2.  

Em 2014, com o auxílio do Navio Cruzeiro do Sul, sob os cuidados da Marinha e do Ministério da Ciência e Tecnologia, coordenamos pesquisas com coleta de biodiversidade no GARS (projeto descoberta de um novo bioma marinho recifal Amazônico) que culminou em um trabalho pioneiro na Sciences Advances1. Alguns anos mais tarde, coordenamos outra expedição importante, que permitiu os primeiros mergulhos com submersível tripulado, em 28 de Janeiro de 2017, a bordo do Navio Esperanza do Greenpeace. Nesta ocasião obtivemos as primeiras imagens do recife e da sua biodiversidade2. No ano seguinte, novamente a bordo do Esperanza, empregamos um grande ROV, e conseguimos filmagens nas proximidades do bloco FZA-M-059. Infelizmente, desde então, poucos estudos independentes têm ocorrido na região.  

O estabelecimento de um novo Fundo para os Recifes para Sempre poderia contribuir para investir em Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) e para alavancar as ciências do mar, incluindo a oceanografia, engenharia, sociologia e bioeconomia. Especial atenção poderia ser dada aos estudos sobre estrutura, função e dinâmica do GARS e do megabioma amazônico. Garantir a preservação da biodiversidade por meio de sistemas inovadores de cultivo da biota do GARS, incluindo cultivos de algas, esponjas e corais em sistemas controlados, e manutenção da biodiversidade, seu material genético em condições seguras e de salvaguarda, seria uma forma também de evitar que a biodiversidade do GARS seja levada para grandes museus e centros de pesquisa do estrangeiro.  

É absolutamente vital que o Brasil crie mecanismos para explorar a biodiversidade endêmica por meio da biotecnologia, biologia sintética, engenharia genética, fermentações e aplicações práticas, assim como obter novos fármacos, alimentos e bioinsumos a partir da biodiversidade do GARS. O investimento em bioeconomia marinha permitirá alavancar o desenvolvimento socioeconômico, empreendedorismo e inclusão produtiva, incluindo uma cultura que envolva as comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas. O que está em pauta é o desenvolvimento da economia da inovação. 

  

1 https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.1501252  

2 https://doi.org/10.3389/fmars.2018.00142 

 

Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências, colaborador especial do Relatório Reservado.

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